Reza a lenda que em Ibiporã a fofoca corre mais rápido que as águas do Rio Tibagí em tempos de cheia. Na noite de sábado, dois cumpadres da zona rural se encontraram na cidade. A Praça Pio XII estava lotada para a Festa Junina, com o cheiro de quentão misturado ao estrondo das caixas de som que pareciam querer rachar o asfalto.
— Cumpadre, pelo amor de Deus! Esse som tá tão alto que tá chacoalhando até minhas dentaduras. Pra que esse exagero? E óiaa...escute essa dupra que custou o zóio da cara... num tem nada a ver com aqueles que canta no radinho lá de casa... Será que é o peso da idade? ...ou é aqueles tar de sósia?
— Ô, cumpadre, deixa de ser jeca! Esse barulho todo é pra fazer jús ao gordo aditivo de contrato de 21% que o prefeito sortô pro cara do som! Saiu no jornal de hoje! Tem que barulhar a cidade inteira pra fingir que o dinheiro tá rendendo!
— Mas pode isso, cumpadre?! Aditivo de 21% assim, do nada, na bochecha do palhaço?
— Se pode, eu não sei, mas que tá pago, tá. E não para por aí não...sô! Sabe aquele sujeito que era lotado lá no setor de Comunicação da Prefeitura, ganhando aquele baita salário porpudo? Orví dizê que é o mesmo tar.
Mas cumpadre, soube que ele pediu as conta hoje!
— Num me diga! Largou a teta pública? O mundo tá acabando...
— Largou a teta pra mamar na vaca inteira seu abestado! O boato na praça é que o filho do homem, o tar lá que quer ser deputado...o milagreiro do dinheiro murtiplicado por déiz... já arranjou um emprego pra ele na campanha.
_ Mas não tem o irmão já empregado no gabinete do herdeiro? Aquele que quer virar deputado estadual de todo jeito. Assim pode ganhar imunidade e não ser preso caso um dia desses seja condenado. É o verdadeiro “rodízio de privilégio”!
— Vixe Maria...crendeuspadre! É tudo em família mesmo, né cumpadre?
— E tem mais! Na semana passada, esse mesmo sujeito da comunicação foi visto o dia inteirinho passeando de carro pra lá e pra cá com aquele camarada famoso... estavam rindo que só vendo, com o ar-condicionado no talo. Sabe quar? Aquele que vai levar e buscar filho na escola com carro do gabinete? Isso...ele mermo. O tar dos esquema das notas de peças de reposição para os veículos da frota municipar! O mesmo que o prefeito afastou do cargo mas não teve coragem de demitir...porque será né? Ou povo pergunta uai!
— Cruz-credo, cumpadre! É o sujo passeando com o mar lavado com o nosso imposto de combustível?
Qual vai ser o final dessa sem-vergonhice?
Enquanto os dois compadres lamentavam a audácia da politicagem local, o sistema de som da Festa Junina deu um estalo ensurdecedor.
A show sertanojo parou abruptamente.
O microfone principal da praça foi aberto, e a voz do próprio locutor oficial da prefeitura ecoou, trêmula, mas audível para toda Ibiporã:— “Atenção, comunidade ibiporaense! Um aviso urgente da comissão organizadora! O veículo oficial da saúde, que traria os doces típicos do arraiá, acabou de quebrar na entrada da cidade por falta de manutenção. Solicitamos que o ex-assessor de comunicação e o seu amigo das notas compareçam urgentemente ao palco principal. Precisamos que eles emitam, em caráter de extrema urgência, uma nota fiscal fria de ‘três pistões invisíveis e um radiador de vento’ com 21% de aditivo, para que a ambulância volte a funcionar magicamente no papel antes que a fiscalização chegue!”
No mesmo instante, as luzes da Praça Pio XII piscaram e o telão de LED do evento começou a transmitir, por engano, a planilha do Excel da prefeitura com o título: “Gastos com Propaganda vs. Peças que Nunca Compramos”.
Ao verem o painel, os dois compadres não aguentaram. Um deles olhou para o outro, ajeitou o chapéu de palha, cuspiu o fumo mascado e disparou:— Olha lá, cumpadre! Não é que o aditivo de 21% serviu pra arguma coisa? Pelo menos o telão virou cinema de comédia de graça para o povo! Puxa a cadeira e pega o quentão, que o show tá só começando! Eiiitaaa mundão véio sem portera. Acaba não!

Comentários: