IBIPORÃ – O fantasma da insegurança volta a assombrar os moradores de Ibiporã, transformando a rotina de pais e avós em um misto de pânico e revolta. Relatos contundentes que circulam nas redes sociais apontam para uma suposta segunda tentativa de sequestro de crianças em um intervalo de apenas duas semanas.
O episódio mais recente teria ocorrido no Jardim San Rafael, envolvendo três ocupantes de um veículo Renault Logan de cor prata. O caso reacendeu um debate incômodo e urgente: afinal, para que serve a monumental rede de monitoramento por câmeras da cidade se ela falha justamente quando a vida das crianças está em risco?
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A indignação ganhou voz forte com o ex-policial militar e ex-vereador Kleber Machado, que não poupou críticas ao cenário atual, classificando a situação com um desabafo cirúrgico: “Está virando bagunça!”. A fala de Machado ecoa o sentimento de uma população que se sente desprotegida, questionando a real eficiência do aparato tecnológico espalhado pelo município.
O cidadão Douglas Campos reforçou a cobrança pública, lembrando que o município conta com uma vasta rede de filmagens públicas e privadas que deveriam, em tese, asfixiar a ação de criminosos. “Creio eu que facilita o serviço da polícia em pegar essa quadrilha”, cobrou Campos, expondo o óbvio contrassenso entre ter a tecnologia e não colher os resultados práticos dela.
A ilusão da "Smart City": Mais de 1,3 mil olhos que não veem o crime
A polêmica ganha contornos de escândalo quando confrontada com os dados de investimentos do próprio município. O que começou em 2019 com um aporte de R$ 360 mil em compras diretas para instalar 380 câmeras patrimoniais em 31 prédios públicos, expandiu-se agressivamente nos últimos anos.
Sob a promessa de transformar Ibiporã em uma moderna "Smart City", a cidade inflou seu parque tecnológico e hoje ostenta mais de 1,3 mil câmeras espalhadas por ruas e repartições. O sistema promete inclusive ferramentas de ponta, como leitura de placas (LPR) e reconhecimento facial.
O paradoxo, no entanto, é alarmante. De que servem 1,3 mil lentes modernas, algoritmos de inteligência artificial e leitura de placas se as forças policiais que estão na rua continuam operando no escuro? A professora Ângela Garcia trouxe à tona uma contradição institucional grave: enquanto a Polícia Militar de Londrina tem acesso direto às câmeras de sua comarca, em Ibiporã a PM inexplicavelmente não possui essa integração em tempo real. "Infelizmente a Polícia Militar não tem acesso às câmeras públicas. Após o sequestro, não vai ajudar muito as filmagens", alertou a educadora cujo marido também é militar. É o retrato de um sistema que apenas assiste à tragédia e registra o crime depois que ele acontece, em vez de preveni-lo ou interceptá-lo.
Nas ruas e nos debates digitais, a insatisfação popular consolidou uma suspeita incisiva: o aparato de vigilância urbana, apelidado por moradores de "Big Brother municipal", parece ter olhos de lince para fiscalizar o trânsito e o bolso do trabalhador, mas sofre de cegueira crônica diante do crime organizado.
Críticos apontam que a leitura de placas funciona com precisão cirúrgica para alimentar a chamada “indústria das multas” e monitorar infrações administrativas, mas mostra-se profundamente inoperante, burocrática e inacessível em situações de emergência que exigem pronta resposta da Polícia Militar.
Enquanto a prefeitura se gaba dos números inflados de sua "cidade inteligente" e o sistema de monitoramento segue sob suspeita de ineficácia prática para a segurança pública, o medo dita o tom, especialmente nos bairros periféricos. A população de Ibiporã exige respostas: as mais de 1,3 mil câmeras servem para proteger nossas crianças ou apenas para vigiar e arrecadar com os motoristas? Com a palavra, a administração municipal.
FONTE/CRÉDITOS: Folha Portal/Ely Damasceno

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