A propaganda eleitoral gratuita é um patrimônio cultural brasileiro. Ela nos traz promessas milagrosas, sorrisos excessivamente brancos e, claro, pérolas da nossa querida língua portuguesa. A mais nova obra de arte da comunicação política paranaense vem direto do material de campanha do candidato a deputado estadual Rafael Eik Ferreira, filho do prefeito de Ibiporã.
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Em letras garrafais, o slogan adverte o eleitorado: "O estado não precisa realizar os seu sonho".
Analisando a fundo a profunda filosofia contida na frase, percebe-se que o candidato quis inovar. Não se trata de um erro crasso de concordância que faria qualquer professor do ensino fundamental chorar em posição fetal; trata-se de um novo modelo econômico-gramatical!
O "Estado Mínimo" agora também se aplica à concordância nominal. Menos plurais, menos gastos com a letra "S". É a austeridade linguística chegando com tudo. A mensagem, se pensarmos bem, é de uma sinceridade comovente. Ao engolir o plural, a campanha de Rafael já avisa de antemão: a educação pública estadual está operando sob forte racionamento de concordância.
Se o candidato não consegue realizar a união estável entre o artigo "os" e o substantivo "sonho", como ele pretende costurar a união dos blocos partidários na Assembleia Legislativa?
Fica o enigma para o eleitor: o Estado não vai realizar o nosso sonho sozinho (singular) ou vai ignorar todos eles de uma vez só (plural)? Na dúvida, o comitê de campanha garantiu que "os problema" da população serão tratados com o mesmo carinho e rigor gramatical.
Se o objetivo do jovem vereador que almeja sonhos mais altos quando ainda pobremente engatinha na política (mas ávido para fazer negócios milionários), era cortar os privilégios da elite intelectual que insiste em usar o plural completo, parabéns!
O primeiro passo para um mandato conceitual já foi dado.
Para o revisor da propaganda, contudo, o "seu sonho" de continuar empregado na próxima eleição provavelmente não vai se realizar. Agora, convenhamos...com R$ 2,5 milhões advindos de mágica imobiliária era de se esperar que contratasse alguém mais competente para sua campanha.
Para corrigir, a frase deveria ser escrita de duas formas:
- No singular: "O Estado não precisa realizar o seu sonho."
- No plural: "O Estado não precisa realizar os seus sonhos."
PS. Na Tia Sônia, e no Colégio Ética tem vagas para aulas de Português!
FONTE/CRÉDITOS: Folha Portal/Ely Damasceno

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