O destino atual do Cine Teatro Padre José Zanelli é uma afronta direta à sua própria biografia. Projetado para universalizar o acesso à cultura, o complexo vive hoje um paradoxo ultrajante: enquanto ostenta um equipamento moderno de projeção recém-adquirido, a tecnologia repousa sob camadas de poeira e teias de aranha devido à completa ausência de uma manutenção simples e de iniciativa política.
O cinema morreu; o teatro agoniza. A plateia que antes aplaudia a genialidade artística hoje testemunha reuniões políticas esvaziadas de propósito comunitário, onde o patrimônio do povo serve apenas de pano de fundo para a autopromoção e a politicagem rasteira.
Outrora palco de gigantes e clássicos de hollywood
É impossível aceitar a decadência do Zanelli sem recordar a magnitude do que ele representa. Este mesmo palco, hoje negligenciado, já foi considerado uma das melhores estruturas cênicas da região. Por suas tábuas passaram lendas imortais que moldaram a identidade cultural do Brasil e do mundo.
No Teatro e na Televisão, a sofisticação dramática de Tarcísio Meira, Glória Menezes (com a aclamada peça “E continua... tudo bem” em 1997) e a imponência de Antônio Fagundes. Na Música Popular e Instrumental, a vanguarda de Ney Matogrosso e Rafael Rabello (em duas apresentações antológicas em 1991), a genialidade de Hermeto Pascoal, o lirismo de Oswaldo Montenegro (em 1995) e a poesia pantaneira de Almir Sater.
Na Dança Internacional e Erudita, o rigor e a beleza técnica do Ballet Bolshoi, além de concertos marcantes de conjuntos de prestígio, como a Orquestra Sinfônica do Paraná (Osinpa). O espaço também ecoou a irreverência de humoristas como Juca Chaves e Ary Toledo aalém de abrigar espetáculos fundamentais de companhias internacionais trazidas pelo prestigiado Festival Internacional de Londrina (FILO).
Na história local, preservou a memória da opereta japonesa “Flor de Lótus”, montada originalmente para homenagear o legado do próprio Padre José Zanelli, o mentor que desembarcou em Ibiporã em 1948 para semear as artes na terra roxa simbolizando a união da comunidade em torno da música clássica e do teatro lírico.
“Memórias de um Diamante”: Grande celebração que resgatou a história viva do teatro com projeções documentais e apresentações cênicas integradas.
”O Quebra-Nozes”: Espetáculo clássico de repertório executado pela Escola de Ballet local, que lotava as dependências do espaço com produções de rigor técnico e visual.
”Poeira das Estrelas”: Produção poética e teatral em homenagem ao icônico artista plástico Henrique de Aragão, evidenciando o papel do teatro como vitrine para os grandes nomes da própria terra.
Grandes Concertos e Big Bands: Apresentações marcantes como a da Big Band de Arapongas, que preenchiam a excelente acústica projetada para os 510 lugares da plateia.
A Memória Clama por Resgate
Permitir que o Cine Teatro se resuma a um salão de convenções partidárias é apagar a história de Ibiporã. O tempo passa implacavelmente, e cada dia de inércia burocrática rouba das novas gerações o direito de vivenciar o cinema e a grande arte. O patrimônio público não pertence aos governantes de turno; nem a suas proles de puxa-sacos. Pertence à memória, ao povo e ao legado cultural que clama, urgentemente, por respeito, zelo e ativação imediata de suas funções vitais.
A trajetória do Cine Teatro Padre José Zanelli não pode ser enterrada pela inércia administrativa. Tratar um patrimônio dessa magnitude como mero auditório partidário é apagar o passado e sufocar o futuro artístico de Ibiporã. O tempo passa implacavelmente, e a memória cultural da cidade clama por respeito, manutenção imediata e a devolução do palco àqueles a quem ele realmente pertence: os artistas, as obras da sétima arte e ao povo. Porque até então, o termo "Cine Teatro", não faz jús ao que temos visto. O projetor digital 3D e o sistema de som Dolby Stereo, que custou meio milhão de reais à época, inaugurado em 8 de novembro de 2015, durante o aniversário da cidade, há muito permanecem apagado e calado.

Comentários: