No Reino da Dinamarca, cenário atípico como mudanças de estação, o período eleitoral nos trás um espetáculo que ganha contornos de deboche explícito quando o personagem principal é o "filho do Rei". — o herdeiro político ao trono, que decide, de uma hora para outra, descobrir a existência do povo que sempre ignorou.
A encenação beira o ridículo. Quem antes desfilava pelo reino protegido pelo isolamento de vidros escuros e fechados, incapaz de lançar um olhar à periferia, hoje circula pelas ruas com um sorriso ensaiado e os braços abertos. O jovem aristocrata, cujas redes sociais sempre exalaram o estilo de vida das grifes de shoppings de grandes centros, agora desceu de seu pedestal de privilégios.
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Subitamente, ele entra na lojinha de comércio popular para comprar camisa de sanfoneiro e fingir uma identidade cultural e popular que nunca possuiu. A hipocrisia não para nas aparências. Ela invade a intimidade e a dignidade das famílias do reino. Tornou-se comum ver esse candidato brotar em festas e eventos sem nunca ter sido convidado, ou forçar uma feição de pesar em velórios de cidadãos que ele jamais conheceu em vida.
Padarias, mercearias e pequenos comércios onde ele nunca comprou uma banana viraram palanque. O homem que sequer cumpre o preceito de ir à missa agora bate cartão nos bancos de diferentes denominações, mendigando a bênção do eleitorado através de uma fé de conveniência com apoio de líderes religiosos que fartamente já foram agraciados pelo Rei. Seja com empregos e gordos salários, seja com doação de terreno.
Para piorar, o abuso do poder econômico e político escancara uma concorrência desleal que humilha os demais candidatos. Um jovem antes desconhecido do público geral da noite para o dia ganha uma "mídia intergalática" com cifras de fazer inveja, e que se duvidar, nunca vão aparecer na prestação de contas. Já é "modus operandi" no Reino.
Travessas e vielas do reino, são pavimentadas por uma enxurrada de material impresso que suja calçadas e bueiros, transformando o espaço público em um lixão de propaganda massiva mesmo sabendo que as chances são menores que a oportunidade. E no reino, os primeiros ministros, a maioria já têm seus preteridos, estes aliás, que verdadeiramente já deram alguma contribuição ao reino, coisa que o pequeno príncipe ainda engatinha para aprender. Filho de peixe, não é peixinho embora carregue o DNA, a vocação nem sempre é a mesma.
O silêncio ou a leniência das autoridades diante desse rolo compressor institucionalizado só aumenta a indignação do cidadão. Tratar herdeiros políticos com privilégios de realeza em plena democracia é um soco no estômago do cidadão trabalhador. A Dinamarca não é um feudo e seus moradores embora súditos, não são vassalos a serem dominados pelo Rei.
É hora de dar um basta a esse teatro de oportunismo barato e mostrar nas urnas que a dignidade da população não está à venda por um aperto de mão forçado a cada quatro anos. E no reino da Dinamarca, para compreender o tamanho da injustiça que se desenha nas ruas, basta colocar o candidato "filho do Rei" lado a lado com os demais concorrentes que disputam o pleito.
A comparação não é apenas inevitável; ela escancara o abismo moral e estrutural que separa o oportunismo dinástico da verdadeira vocação pública. De um lado da calçada, caminha o herdeiro do poder. Sua campanha não é fruto de uma trajetória de liderança, mas sim de uma transferência de herança política com ajuda de quem deve favores ao rei.
Ele não precisa convencer pelas ideias, pois tem a máquina pública e uma estrutura milionária pavimentando o seu caminho. O seu contato com o povo é um evento agendado, uma performance ensaiada com assessores ao redor para registrar o "banho de povo" fake. Para pisar no barro da periferia ou entrar no comércio popular é um sacrifício temporário, um pedágio necessário que ele paga de má vontade para tentar herdar futuramente o trono do pai.
Do outro lado, estão os demais candidatos. Homens e mulheres que construíram suas vidas e suas reputações no dia a dia da comunidade. Esses candidatos não têm vidros fechados para abrir, porque sempre andaram a pé, de ônibus ou em carros simples, olhando no olho do cidadão muito antes de pensarem em eleição.
Eles frequentam a comunidade não porque precisam de votos em outubro, mas porque fazem parte dela. Suas histórias são marcadas pelo suor, pelo trabalho e pelo conhecimento real das dores do reino.
Enquanto o filho do rei conta com uma "mídia" ostentada pelo poder financeiro, os outros candidatos travam uma batalha de formiguinha. Eles disputam o espaço gastando a sola do sapato, contando com o apoio voluntário de amigos e familiares, e defendendo suas propostas em desvantagem extrema. Para cada panfleto que um candidato humilde entrega com orgulho de sua história, o herdeiro despeja toneladas de papel sustentadas pela sombra do poder e um perfil que ninguém reconhece.
Essa disputa é o retrato vivo de uma concorrência desleal. É o Davi contra o Golias da máquina pública. Enquanto uns usam a política como um privilégio de família para perpetuar o poder, outros a enxergam como uma ferramenta legítima de transformação social. Apoiar o teatro do herdeiro é validar a ideia de que a Dinamarca tem donos.
Para nós, súditos pequenos com direito a voto, resta-nos com humildade e pé no chão defender o verdadeiro espírito da democracia, onde o valor de um candidato deve ser medido pelo seu caráter e pelo seu histórico de serviço, e não apenas pelo sobrenome do pai e histórico do rei...
FONTE/CRÉDITOS: Folha Portal/Ely Damasceno

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