A lógica de transferir a culpa da ineficiência do Estado para o cidadão ganhou um novo capítulo na Câmara Municipal. O vereador Rafael Eik Borges Ferreira (Avante) apresentou uma indicação que sugere a adoção de um protocolo rigoroso de controle de absenteísmo na saúde pública.
A proposta foca em mecanismos de responsabilização e punição para faltas injustificadas em consultas, exames e sessões de médicos especialistas.
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Ao mirar exclusivamente no comportamento do usuário, o parlamentar adota uma postura punitiva em detrimento de medidas educativas. Essa abordagem revela uma perigosa desconexão com a realidade enfrentada diariamente pela população que o elegeu. Um verdadeiro "tiro no pé" para quem tem pretensões de vôos mais altos como disputar uma cadeira na Assembleia Legislativa.
O argumento de que o controle rígido vai "melhorar o aproveitamento das vagas e reduzir filas" ignora o problema estrutural crônico do município: a falta de médicos especialistas e de profissionais como fisioterapeutas. O cidadão muitas vezes não comparece a um agendamento porque o sistema falha em avisá-lo a tempo, porque falta transporte público acessível ou porque a consulta demorou tanto a sair que o quadro de saúde se alterou.
Exigir punição de quem depende do Sistema Único de Saúde (SUS), sem antes garantir um serviço de agendamento eficiente e humanizado, é inverter a ordem das obrigações constitucionais. Além disso, a indicação do vereador caminha na contramão da opinião pública e dos anseios de seus próprios eleitores.
A população local clama por mudanças profundas e urgentes na administração geral da saúde municipal. Os moradores exigem mais contratações, ampliação de horários, descentralização do atendimento e o fim do "apagão" de especialistas. Ao focar a caneta no elo mais fraco da corrente, o parlamentar blinda a gestão pública de suas responsabilidades diretas. Ele transforma a vítima da precariedade do sistema no único culpado pelas longas filas de espera.
Acorda vereador, é assim que quer receber votos da população? Dinheiro compra terrenos mas não compra votos de cidadão politicamente esclarecido. "Think about!"
FONTE/CRÉDITOS: Folha Portal/Ely Damasceno

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