Ibiporã vive dias de canteiro de obras e noites de sonhos europeus. Quem caminha pelas avenidas Paraná e Santos Dumont já percebeu a grande revolução urbana dos últimos anos: arrancaram o calçamento antigo para colocar paver. Uma mudança estética que custou mais de R$ 2 milhões aos cofres públicos. Mas se você achava que a renovação parava na escolha do piso tátil, prepare-se. Há quem olhe para o chão de paver e enxergue o futuro. Um futuro sem postes.
O autor da façanha imaginária é um dos nossos edis, cuja mente fértil acaba de parir o "sonho utópico" da fiação subterrânea. A ideia é de uma poesia urbana ímpar: retira-se novamente a calçada, agora de paver, enterram-se os cabos da Copel, arrancam-se os postes de concreto e, no espaço livre das calçadas novinhas, brota uma ciclovia reluzente.
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Para coroar o plano de mobilidade digno de Amsterdã, o mesmo parlamentar já correu para apresentar um Projeto de Lei regulamentando o uso de patinetes elétricos na cidade. Só esqueceram de avisar os patinetes para combinarem com o relevo local.
A utopia, porém, esbarra em um detalhe insignificante chamado realidade financeira. De acordo com estimativas técnicas, a brincadeira de enterrar os cabos no centro de Ibiporã passaria facilmente da casa dos R$ 50 milhões. E adivinhe quem vai pagar essa conta de luz gourmet?
Acertou quem pensou no contribuinte. A Copel já deixou claro o óbvio: o custo astronômico da obra fatalmente seria repassado para as faturas de energia de todos os consumidores da cidade. Não a toa que a capital do estado, Curitiba já repensa no projeto há dois anos, visto a inviabilidade financeira da obra mesmo com apoio do BNDS.
Ou seja, para que meia dúzia de modernistas possa desfilar de patinete elétrico em uma calçada sem poluição visual, o trabalhador da periferia vai pagar o quilo do watt-hora a preço de ouro. É a socialização do prejuízo em nome da estética parlamentar. O vereador deve achar que estamos em Dubai ou em qualquer cidade milionária do oriente médio.
Substituir o asfalto por paver e depois querer rasgar tudo de novo para enterrar fio é o suprassumo do planejamento público "põe-e-tira".
Enquanto isso, os patrícios comerciantes das avenidas Paraná e Santos Dumont assistem ao espetáculo com as mãos na cabeça. O setor mal se recuperou do quebra-quebra recente da troca do piso — que espantou clientes, sumiu com faturamento e cobriu as vitrines de poeira. Será que a proposta do nobre vereador exige rasgar o paver novinho em folha, abrindo valas profundas na porta das lojas? O lojista paga o pato e o político ganha o holofote?
Não é a questão de ser crítico mas ideia proposta ganha contornos ainda mais cômicos quando confrontada com o trânsito real das duas artérias da cidade. As avenidas Paraná e Santos Dumont já sofrem diariamente com o fluxo estrangulado, falta de vagas de estacionamento e gargalos nos horários de pico.
Imaginar uma ciclovia gourmet dividindo espaço com pedestres nas calçadas, repleta de patinetes elétricos zunindo entre sacolas de compras, é ignorar o básico da convivência urbana. O trânsito de Ibiporã precisa de soluções de fluxo, sinalização e segurança, não de obstáculos tecnológicos importados de realidades que não são as nossas.
No fundo, o projeto do patinete e do fio invisível serve muito bem ao propósito de seu criador: o marketing político de rede social. É fácil protocolar projetos mirabolantes na Câmara Municipal sabendo que a execução depende do bolso alheio. O parlamento local flerta como empréstimos milionários, construção de lagos e outros absurdos enquanto problemas básicos de saúde, segurança e infraestrutura real nos bairros Balneário Tibagi e Poço Bonito aguardam na fila de prioridades.
Ibiporã quer ser Paris, mas o bolso do cidadão mal aguenta o preço da cesta básica. Enquanto os postes continuarem de pé, eles servem ao menos para uma coisa: segurar a realidade antes que ela caia, de patinete e tudo, na cabeça do povo. Será que o parlamentar também realizou consulta pública nas redes sociais sobre a possibilidade de uma ciclovia sobre as calçadas, e o custo que isto pode impactar no seu bolso? Será que receberia o "apoio expressivo" como sua suposta "mobilidade urbana."?
FONTE/CRÉDITOS: Folha Portal/Ely Damasceno

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