Diz o ditado que o barato sai caro, mas em Ibiporã, até o que custa caro consegue a proeza de derreter antes do tempo. Prometida como a redenção dos produtores rurais e o fim do pesadelo do barro, a pavimentação de 4,2 quilômetros da Estrada Rural Água das Abóboras virou um monumento à ineficiência.
Menos de um ano após a intervenção, o pavimento intertravado de paver — que deveria aguentar o escoamento agrícola — está afundando. A obra, que custou a bagatela de R$ 3,1 milhões aos cofres públicos — inflada por aditivos que empurraram os prazos contratuais até maio de 2026 —, foi vendida com pompa e circunstância pelo prefeito José Maria Ferreira (PSD) e pelo governo estadual.
O objetivo era nobre: garantir a trafegabilidade e reduzir custos de manutenção. O resultado prático? Uma estrada cheia de ondulações e buracos decorrentes de uma compactação de solo nitidamente inadequada.

O vereador Hugo Furrier(MDB) já cantava a pedra no Legislativo. Ele avisou, fiscalizou e apontou as falhas estruturais antes mesmo de o “serviço” terminar. Agora, o parlamentar retorna ao local apenas para certificar-se do óbvio: o tempo provou que ele estava coberto de razão, e os agricultores, cobertos de prejuízo.
Enquanto o vereador Hugo Furrier cumpre seu papel de fiscalizar e expor o desastre que já havia alertado, a prefeitura e a empreiteira ensaiam o clássico jogo de empurra. O silêncio da gestão municipal diante de uma obra deteriorada em tempo recorde é o verdadeiro aditivo à indignação da comunidade rural.

A Conta da Estrada Água das Abóboras Não Fecha
O contrato nº 398/2022, que carimbou o investimento de R$ 3,1 milhões para pavimentar 4.220 metros da via rural, transformou-se em uma colcha de retalhos burocrática.
A execução arrastou-se por sucessivos termos aditivos. O sexto termo aditivo, por exemplo, empurrou a vigência contratual até maio de 2026. O paradoxo financeiro é gritante: enquanto os prazos e a papelada se estendem formalmente na burocracia da prefeitura, o paver assentado no chão cedeu em menos de doze meses. O afundamento da pista por falha técnica de compactação escancara o prejuízo ao erário: pagou-se caro por uma durabilidade que não existiu.
O Padrão de Descaso: Da Estrada aos Prédios Públicos
O asfalto caipira que cede na zona rural não é um fato isolado, mas o reflexo de um modus operandi que parece priorizar contratos inflados em detrimento da fiscalização. Enquanto os produtores rurais atolam no paver mal compactado, na área urbana a população assiste a outras novelas de desperdício.
Recentemente, a própria sede da Prefeitura de Ibiporã virou alvo de denúncias ao Ministério Público por supostas irregularidades e aditivos suspeitos em sua reforma estrutural. O paralelo é inevitável: sob a mesma gestão, falta rigor técnico para entregar uma estrada no interior e sobra facilidade para aditivar contratos de prédios públicos.

Saúde e Urbanismo em Segundo Plano
Essa desconexão com a realidade também transborda para setores vitais como a saúde e o planejamento urbano. Enquanto milhões afundam na lama da Água das Abóboras, bairros como o Jardim Cinquentenário, Vila Rosana e Serraia clamam por ações básicas e urgentes de vigilância e controle de endemias.
Moradores dessas regiões relatam uma proliferação alarmante de mosquitos e escorpiões, forçando os laboratórios locais a registrarem um salto na busca por exames de dengue. Em vez de focar na zeladoria básica, na compactação correta de suas estradas ou na saúde preventiva dos bairros, o Executivo prefere se encastelar em audiências burocráticas do Plano Diretor para discutir o futuro de uma cidade que, no presente, está esburacada e sem manutenção.
Resta agora o jogo de empurra que o contribuinte já conhece de cor. De quem é a culpa pelo solo que cedeu na Água das Abóboras? Da empreiteira responsável pela execução porca do serviço ou do município, que pecou por uma fiscalização omissa e complacente? Seja da prefeitura ou da construtora, o fato é que o dinheiro do cidadão escorreu pelo ralo, e o paver afundou junto com a credibilidade da gestão.


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