A harmonia estética e financeira da política de Ibiporã atingiu um novo patamar cromático. O prédio da Câmara Municipal começou a ser repintado para combinar milimetricamente com a paleta de cores da Prefeitura, oficializando o apelido que corre à boca pequena na cidade: o Legislativo virou "puxadinho do gabinete do prefeito".
A independência entre os poderes, princípio constitucional clássico, foi elegantemente pincelada para dar lugar a uma união familiar impecável, comandada por pai (Prefeito) e filho, o atual presidente da Casa, Rafael Eik Ferreira.
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O Preço da Sintonia Familiar
Se em 2022 a pintura do prédio — capitaneada pelo ex-presidente Pedro Chimentão — custou aos cofres públicos R$ 32.890,57, a atual gestão resolveu que a beleza e o alinhamento político exigem um investimento muito mais "robusto". O mesmo serviço agora vai custar a bagatela de R$ 72.686,00.
Uma valorização imobiliária e artística de fazer inveja a qualquer investidor, com um salto de mais de 120% no valor. Dizem que a inflação das tintas em Ibiporã anda batendo recordes históricos, ou talvez o galão de tinta venha com partículas de ouro para justificar o novo orçamento.
Em 2022, cinco empresas disputaram o certame que previa gastar até R$ 51.984,30. Desta feita, nenhuma das anteriores foi convidada e
a empresa F3 Pinturas Ltda foi contratada por meio de "Dispensa de Licitação (90004/2026)" o que foge aos trâmites transparência e economicidade de um processo licitatório. Curiosamente, a empresa contratada foi aberta apenas há um ano.
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| O CUSTO DA COR EM IBIPORÃ |
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| Gestão Pedro Chimentão (2022)| R$ 32.890,57 |
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| Gestão Rafael Eik (Atual) | R$ 72.686,00 |
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A Mágica da Concorrência de Uma Empresa Só
A engenharia licitatória do município também merece palmas pelo minimalismo. Em 2022, cinco empresas duelaram no certame, o que jogou o preço para baixo e gerou economia. Desta vez, em um mistério digno de triller corporativo, apenas uma empresa se apresentou com proposta.
Para que reabrir prazos ou republicar o edital em busca de mais transparência e concorrência, não é mesmo? O bom do cliente único é que ele não briga por desconto, evita a fadiga de ler planilhas concorrentes e acelera o processo de embelezamento do patrimônio público.
O Arquiteto do Alinhamento de Poderes
Segundo relatos de bastidores vindos de assessores da Casa, a exigência do presidente Rafael Eik tem um motivo puramente cenográfico. Ele não quer, de forma alguma, "destoar" das cores escolhidas pelo arquiteto Julio Dutra para a reforma da Prefeitura. Se o pai pinta o Executivo de uma cor, o filho garante que o Legislativo use o mesmo tom.
Afinal, a separação de poderes prevista na Constituição de 1988 é apenas um detalhe burocrático perto da necessidade de manter o feed do Instagram institucional visualmente harmônico. Em Ibiporã, a política mudou de patamar: a harmonia entre os poderes não se faz mais com debates, leis ou fiscalização, mas sim com o mesmo rolo de pintura e a mesma conta bancária bem generosa.
Se a pintura da Câmara de Ibiporã vai custar os olhos da cara, o silêncio dos outros vereadores saiu de graça.
Enquanto o rolo de tinta passa pelas paredes do "puxadinho" oficial do Executivo, a bancada de parlamentares da cidade parece ter entrado em um estado de meditação profunda, onde ver o dinheiro público evaporar virou apenas um detalhe estético.
Afinal, a principal função de um vereador é fiscalizar o uso do dinheiro do contribuinte, mas em Ibiporã a fiscalização foi guardada no mesmo depósito das tintas da gestão passada. É fascinante notar como uma bancada praticamente inteira de legisladores, eleitos a peso de ouro para proteger o bolso do cidadão, assiste de camarote a um salto de mais de 120% no preço do mesmo serviço de pintura de 2022.
- Onde estão os pedidos de informação?
- Onde estão os questionamentos sobre a licitação de uma empresa só?
- Onde estão as transmissões ao vivo indignadas nas redes sociais?
Ao que tudo indica, os nobres vereadores foram acometidos por uma súbita miopia administrativa. Eles não conseguem enxergar a diferença gritante entre R$ 32 mil e R$ 72 mil. Ou talvez o medo de estragar a harmonia cênica projetada pelo arquiteto da Prefeitura fale mais alto do que o dever constitucional.
Em um parlamento saudável, o fato de apenas uma empresa aparecer em uma licitação — sem que a Mesa Diretora movesse um dedo para republicar o edital e atrair concorrência — seria motivo para discursos inflamados na tribuna. Em Ibiporã, gerou um silêncio sepulcral que ecoa mais forte do que o barulho das obras.
Os vereadores parecem ter aceitado que o papel deles na cidade mudou. Eles não são mais fiscais do Executivo; são apenas os inquilinos tolerados do puxadinho do prefeito. Questionar o preço da tinta do filho do chefe seria, no mínimo, uma indelicadeza familiar. Enquanto o cidadão comum de Ibiporã faz malabarismos para pagar o IPTU, os vereadores validam com o seu silêncio a transformação da Casa do Povo em um anexo cromático da Prefeitura.
Eles provam que, na política local, a omissão também tem cor — e, neste caso, é exatamente a mesma cor escolhida pelo gabinete do lado.
Afinal, para que fiscalizar e arrumar confusão com a dinastia local se você pode simplesmente fingir que o aumento de custos é apenas o "preço da beleza"? Se o prédio vai virar um puxadinho visual, os vereadores já garantiram o crachá de funcionários terceirizados do Prefeito, com direito a silêncio remunerado pelo imposto do povo.
FONTE/CRÉDITOS: Folha Portal/Ely Damasceno

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