IBIPORÃ – Quem passa pelas imediações da Avenida Ibrahim Prudente da Silva e aguarda, há anos, a conclusão das obras de duplicação, vai ter que esperar um pouco mais — ou sentar na calçada para ver o asfalto passar longe. Em uma manobra que desafia a lógica do tráfego urbano e abraça o mistério das conveniências locais, a administração do prefeito José Maria Ferreira decidiu ignorar a desapropriação de duas quadras que resolveriam o gargalo da via principal.
Em vez disso, a caneta do Executivo preferiu “rasgar” um trecho de zona rural para criar um traçado alternativo rumo à Zona Sul. A nova rota, que avança pelas obras de pavimentação e terraplanagem da região da Avenida Humberto Belinato, é vendida pela comunicação oficial como a redenção da interligação entre bairros. Mas o cheiro que sobe da terra batida não é apenas de óleo diesel dos rolos compressores; exala também o clássico aroma da especulação imobiliária de grife.
Engenharia do Tráfego ou dos Negócios?
Moradores e observadores da cena política local já começaram a ligar os pontos — e os lotes. A pergunta que ecoa entre os barracos da periferia e os gabinetes da cidade é simples: a quem interessa, afinal, abrir uma nova avenida em plena área rural enquanto o trânsito do centro colapsa? A execução dos serviços de terraplanagem e pavimentação na região da Avenida Belinato carrega fortes indícios de que o principal impacto da obra será o imobiliário, e não o de trânsito.
A abertura de infraestrutura asfáltica em áreas anteriormente destinadas à atividade agrícola ou de baixa densidade promove uma imediata e expressiva valorização dos terrenos adjacentes. A necessidade real de melhorar o fluxo de veículos parece ter ficado em segundo plano, atropelada pelo carimbo da valorização imobiliária. Afinal, transformar terra de plantar soja em metros quadrados altamente valorizados, da noite para o dia, é uma mágica que poucos setores conseguem operar com tanta eficiência quanto o poder público quando quer.
E se há um assunto que a atual gestão domina com maestria, é esse. Não custa lembrar que o Ministério Público já colocou sob os holofotes denúncias que envolvem o prefeito e seus filhos exatamente nessa área cinzenta onde o interesse público e o desenvolvimento imobiliário privado se confundem. Como diz o ditado popular nas esquinas de Ibiporã: de valorização de lotes e loteamentos, a família entende muito bem.
A coincidência entre os investimentos em infraestrutura pública e o direcionamento de vetores de valorização de terras recoloca sob suspeita os reais critérios de planejamento da gestão.
O Mistério dos Donos da Terra
A Avenida Humberto Belinato virou o novo palco desse teatro de conveniências. O prolongamento da via exigiu até a detonação de rochas e paralisou trechos da obra por períodos suspeitamente longos, mas o empenho em rasgar as fazendas continua firme. Fica a sugestão no ar e o desafio para os órgãos de fiscalização: a quem pertencem, de fato, as áreas e glebas que serão diretamente beneficiadas ao longo desse novo asfalto que liga o Centro à Zona Sul?
Quem comprou terras ali antes do anúncio da obra? Quais CNPJs ou CPFs ligados ao alto escalão vão ver seus patrimônios multiplicados por dez graças ao asfalto pago com o dinheiro do contribuinte?
Enquanto o mistério não se desfaz, o cidadão de Ibiporã segue desviando dos buracos nas vias antigas, assistindo à prefeitura gastar milhões para pavimentar o futuro condomínio — ou a futura fortuna — de alguém. Se o trânsito vai melhorar, ninguém sabe. Mas que os lotes vizinhos já estão valendo ouro, disso ninguém duvida.
- Quem são os proprietários legais das glebas e terrenos que margeiam o novo prolongamento asfáltico?
- Houve transações de compra e venda dessas áreas nos meses que antecederam o anúncio oficial e o início do projeto viário pela Prefeitura?
- Existem empresas, loteadoras ou CPFs vinculados a integrantes do alto escalão do governo municipal ou a seus familiares detendo interesses comerciais na região beneficiada?

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