Em um município onde o cidadão disputa a tapa uma ficha de atendimento no posto de saúde e a assistência social sobrevive de milagres, a Câmara Municipal tornou-se o palco de um espetáculo tragicômico. Ali opera o "parlamentar ostentação", um sujeito cuja desconexão com a realidade local só não é maior que o seu próprio ego.
Enquanto a saúde vai de mal a pior, o nobre edil ocupa o tempo legislativo parindo projetos faraônicos que flutuam em algum lugar entre o delírio futurista e o puro oportunismo midiático. A última pérola foi a proposta de implantação de um novo portal de entrada na cidade. Para o vereador, pouco importa se o eleitor não tem o dinheiro da passagem de ônibus, se as creches estão sem merenda,ou se falta remédio no posto de saúde. O que a cidade precisa, claramente, é novo portal com cabines suspensas dotadas de Wi-Fi para que a pobreza possa ser apreciada de cima, em alta definição.
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Mas o verdadeiro "show" acontece quando o visionário de gabinete é confrontado pela realidade. Munido de uma indignação seletiva e absolutamente teatral, ele usa a tribuna — paga com o dinheiro dos impostos de quem ele ignora — não para debater soluções, mas para blindar sua própria incompetência.
Em discursos inflamados e repletos de "vossas excelências" protocolares, o vereador gasta saliva atacando o morador comum que, indignado, ousou criticar sua atuação pífia nas redes sociais. Para o edil, o cidadão cansado de esperar por uma consulta médica não é um eleitor cobrando direitos, mas um "membro de uma milícia digital orquestrada para desestabilizar o mandato popular".
Logo em seguida, o alvo passa a ser a imprensa e as mídias locais. Sob a ótica distorcida do parlamentar, qualquer manchete que exponha o ridículo de suas propostas é rotulada como "jornalismo de má-fé", "perseguição política" ou "narrativa criminosa para assassinar sua reputação".
O ápice do cinismo, contudo, é a sua maleabilidade espinha-longa diante da rejeição popular. Bastou a repercussão negativa azedar o humor dos grupos de WhatsApp da cidade para que o leão da tribuna ativasse o modo recuo estratégico. O discurso agressivo dá lugar à clássica coreografia do "não foi bem isso que eu disse".
Em uma coletiva improvisada ou em uma nova sessão, ele joga a culpa na interpretação de texto alheia: "O meu projeto era meramente autorizativo e conceitual, a imprensa sensacionalista tirou de contexto para criar pânico".
Ao reescrever o próprio passado em tempo real, o vereador demonstra sua única habilidade real: a de se esquivar de responsabilidades. A cidade segue sem remédios, a administração sem fiscalização, as obras devagar quase parando mas com a garantia de que, na próxima semana, o palanque estará pronto para mais um delírio megalômano — seguido, obviamente, pelo pedido de desculpas mais esfarrapado da política local. E cabe a pergunta: Quem vai investigar o piso de granito pago como de primeira, que ao ser assentado tornou-se de segunda? O povo quer saber...esta é a função do vereador. FISCALIZAR e não ficar de picuinha e projetos faraônicos.
FONTE/CRÉDITOS: Folha Portal/Ely Damasceno

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