O caso do vereador Rafael da Farmácia, em Ibiporã, tornou-se um dos episódios mais dramáticos da política local recente. Isto claro, fora os escândalos de corrupção, e crime de colarinho branco protegidos por "segredo de Justiça" onde o vereador na sua humildade, jamais se prestaria a esse tipo em sã consciência.
De figura extremamente popular e cotado para voos maiores, como a prefeitura, ele viu sua trajetória ser abalada por uma fala interpretada como racista, que agora ameaça seu mandato e seu futuro político com a incerteza desse momento. Companheiro de anos no MDB, vejo o vereador Rafael apertando mãos, abraçando idosos e sorrindo entre as visitas diárias a pessoas dependentes e apoio que por vezes vale mais do que um remédio que levava consigo.
A farmácia que lhe deu o nome, e virou modelo popular no país já não existe mais.
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Naquele pequeno prédio, hoje tomado pelo mato e abandonado pelo poder público na avenida Londrina, apenas o pôr do sol passa pelas frestas da persiana esquecida.
Posso relembrar o Rafael lá dentro, sentado à mesa com o rosto entre as mãos e a preocupação em retomar o estoque de medicamentos por doações voluntárias os quais atendia a população carente.
Hoje o cenário é outro. No seu sombrio gabinete, pairam sobre a mesa não mais projetos para ser estudado nas Comissões.
Para testemunho do pequeno porta retrato num canto da sala, documentos do processo judicial estão espalhados a sua frente.
O silêncio desta sala... grita mais que a multidão festiva no dia de sua posse. E Rafael chega a questionar: Onde estão os "amigos" que buscavam um conselho, um remédio, uma promessa?
Imagino o vereador num dilema triste, fruto de suas ações, ambição política, e virar as costas para os amigos que o apoiaram na política e os companheiros que outrora estavam com ele.
Conheci o Rafael contando histórias como conhecer cada paralelepípedo dessa cidade, cada fundo de bairro por mais longe que fosse.
Ali estava seu eleitor tão simples como sua pessoa.
Construiu seu nome no balcão, ouvindo as dores do povo. Ele era o remédio para a carência deles.
O sonho da prefeitura não era uma vaidade... era o próximo passo lógico.
O destino estava desenhado. Mas a língua... Ah, a língua é um chicote que volta para ferir o próprio dono. Vejo o vereador pegar o papel com a transcrição de sua fala que gerou a denúncia sobre a mesa. Ele a lê com amargura.
Uma palavra. Uma colocação "infeliz", dizem uns. "Inadmissível", dizem outros. O que para ele foi um deslize de momento, para o mundo foi um espelho de algo sombrio. Como explicar que o coração não queria dizer o que a boca proferiu?
Uma palavra. Uma colocação "infeliz", dizem uns. "Inadmissível", dizem outros. O que para ele foi um deslize de momento, para o mundo foi um espelho de algo sombrio. Como explicar que o coração não queria dizer o que a boca proferiu?
A justiça não lê intenções, ela lê fatos. E o fato é que o herói da farmácia agora é o vilão da tribuna.
Resta-lhe ainda a possibilidade de mais um golpe. De ver entrar por debaixo da porta, uma notificação da Comissão de Ética.
O chamado carrasco em papel timbrado. Eles querem o meu mandato?...pode imaginar... Querem apagar o "da Farmácia" e deixar apenas o réu?
Pois é, meu amigo Rafael...a popularidade é um castelo de areia; basta uma onda de indignação para que as torres desmoronem.
Hoje a cadeira de vereador, parece grande demais para nosso nobre edil.
De sucessor natural a pária político. Ontem, sonhava com a faixa no peito.
Hoje, luta para não ter o nome manchado nos anais da história como aquele que caiu pelo próprio veneno.
A justiça de Deus eu conheço... mas a dos homens... essa não aceita desculpas quando o clamor das ruas pede uma cabeça.
Na penumbra do gabinete, o que se ouve é apenas o tic-tac do relógio de parede.
O sonho acabou? Ou o pesadelo é que apenas começou?
O sonho acabou? Ou o pesadelo é que apenas começou?
A situação deixou uma lição e ilustra como a vigilância sobre falas discriminatórias no ambiente público tornou-se rigorosa, transformando favoritismo político em fragilidade jurídica e institucional.
FONTE/CRÉDITOS: Folha Portal/Ely Damasceno

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