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Quarta-feira, 20 de Maio de 2026
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Duas Medidas, Dois Pesos: O Teatro Político de Ibiporã e a Exclusão das Mulheres do Poder

Desqualificação sistemática da capacidade técnica e de liderança, reduz a atuação feminina a estereótipos tradicionais de gênero.

Ely Damasceno
Por Ely Damasceno
Duas Medidas, Dois Pesos: O Teatro Político de Ibiporã e a Exclusão das Mulheres do Poder
📸Arquivo/IA
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   A política de Ibiporã escancara sua face mais tradicionalista, machista e dinástica ao dar palanque ao poder hereditário enquanto silencia e isola as lideranças femininas locais. O recente lançamento da pré-candidatura de Rafael Eik Ferreira, atual Presidente da Câmara Municipal e filho do prefeito José Maria Ferreira, transformou o Cine Teatro Padre José Zanelli em um verdadeiro palco de bajulação pública, evidenciando o abismo que separa os herdeiros do poder das mulheres que tentam construir uma trajetória na política local.
 
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   Nosso teatro (até porque o cinema acabou) virou palco de conveniência política ao ser usado para oficializar os novos passos do filho do prefeito que por sua vez, não se incomoda em abusar de poder estrutural. O Cine Teatro foi preenchido por uma plateia cativa e estrategicamente posicionada.
 
    É possível notar, como em outras ocasiões o peso do alinhamento institucional quando grande parcela do funcionalismo, atende a convocação para fazer número na plateia. De olho na manutenção do "status quo" econômico, figuram membros da associação comercial, figurões da sociedade e empresários geralmente financiadores de campanha e cobradores de favores. Desses que recheiam o serviço público com membros da grande família. E ainda há espaço para simpatizantes históricos do atual chefe do executivo e os tradicionais bajuladores que orbitam ao redor de cargos e influência política.
 
    Este é o cenário de arranque para mais uma campanha eleitoral. A engrenagem pública operou a pleno vapor para pavimentar a estrada de um candidato cuja maior credencial inicial é o sobrenome, assegurando-lhe uma estrutura blindada, palanque cheio e recursos invisíveis de articulação que só o Ministério Público e o Gaeco conhecem.
 
     O contraste da estrutura política em Ibiporã, carrega o DNA do machismo, como abordamos no inicio deste texto. O pré cancidato Rafael Eik Ferreira dá a largada com teatro lotado, apoio da máquina pública, alinhamento empresarial e estrutura partidária garantida. Dai pergunto: _ porque isso não acontece com as candidatas mulheres?
 
    Nas últimas eleições o que temos visto foi isolamento político, campanhas sem recursos, desdém do eleitorado e das lideranças partidárias e a necessidade de ralar só. Senão atentem para o contraste histórico em Ibiporã em relação às candidaturas femininas.  Enquanto o tapete vermelho é estendido para o herdeiro do paço municipal, a memória recente das últimas eleições legislativas expõe as cicatrizes do machismo estrutural da cidade.
 
   Na disputa para deputada, Ibiporã contou com duas candidatas de notória e indiscutível contribuição para o desenvolvimento de políticas públicas e causas sociais.  Diferente do privilégio dinástico, a realidade dessas mulheres foi marcada pelo desamparo.  Não houve mobilização da máquina e nem o interesse das velhas oligarquias em apoiar seus nomes. Ambas fizeram campanhas solitárias e tiveram que "ralar" sozinhas, enfrentando a escassez de recursos e a ausência de grandes comícios.
 
     Onde estava o Conselho da Mulher Empresária que não abraçou a causa de nenhuma delas?  Sem dúvida duas heroínas que enfrentaram além da barreira cultural uma sociedade tradicionalista que enxerga o espaço de poder como propriedade exclusiva dos homens.
   Esse desdém histórico não se limita ao legislativo. A rejeição sistemática às mulheres na liderança máxima da cidade é comprovada pelo fato de que candidatas ao cargo de prefeita foram derrotadas por duas vezes consecutivas nas urnas locais, reforçando o teto de vidro imposto pelo machismo regional.

    A discrepância de tratamento no cenário político local reflete uma inversão de valores preocupante. As mulheres são, historicamente, as principais articuladoras de políticas públicas essenciais, atuando diretamente em frentes de assistência social, saúde e educação no município.         No entanto, quando essas mesmas mulheres decidem pleitear o protagonismo e o comando dessas ações através de mandatos legítimos, a resposta da comunidade tradicionalista costuma ser o silêncio, o desdém ou o voto de desconfiança.
 
    O espetáculo do Cine Teatro lotado para saudar o filho do prefeito deixa uma reflexão incômoda para Ibiporã: até quando a cidade continuará a aplaudir a sucessão hereditária masculina enquanto fecha as portas para a representatividade de mulheres que dedicam suas vidas ao bem-comum sem o luxo do apadrinhamento político?
 
   É notório que a manutenção do machismo na política opera como um sistema de exclusão que deslegitima candidatas, resultando em violência de gênero. Ele se manifesta no corte de repasses partidários, na distribuição desigual do tempo de rádio e TV, e em ataques virtuais e físicos criados para silenciar mulheres e afastá-las dos espaços de poder. Não era aí que o tal Observatório Nacional da Mulher na Política (ONMP) deveria atuar?
 
   Nos dias de hoje tal fato é agravado pelo ambiente digital, através de ameaças, difamações e assédio moral que visam desestimular as candidaturas femininas.   Muitas mulheres relatam a falta de apoio logístico e financeiro das direções partidárias, além de verem suas campanhas preteridas em prol de candidaturas masculinas o que sugere um descrédito profissional e desqualificação sistemática da capacidade técnica e de liderança, reduzindo a atuação feminina a estereótipos tradicionais de gênero.
 
   A sucessão a cadeira do Executivo em Ibiporã foi e provavelmente será de novo mais um triste episódio, se é que a vice-prefeita alimenta um sonho de ser a candidata a sucessão. A história já provou que este remédio amargo não faz efeito. E no jogo das cadeiras, tudo é manipulado em nome do "companheirismo e compreensão democrática".
 
   Para combater esse cenário, a legislação eleitoral brasileira avançou com a implementação de cotas de candidaturas e destinação obrigatória de recursos (como os fundos Partidário e Eleitoral). No entanto, o pleno exercício dos direitos políticos ainda depende da aplicação rigorosa de punições contra a violência de gênero nos partidos e tribunais.  No papel é tudo bonito mas enquanto existir e imperar o coronelismo e a política de sucessão hereditária, esta fórmula não dará certo. Nem aqui, nem no Reino da Dinamarca!
 
FONTE/CRÉDITOS: Folha Portal/Ely Damasceno
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Ely Damasceno

Publicado por:

Ely Damasceno

Bacharel em Teologia Theological University of Massachussets USA 1984/1990. Jornalismo pela Faculdade de Tecnologia de São Paulo. Repórter Gaz.Esportiva, Diários Associados, Estadão/SP, Jornais Dayle Post, em Boston-USA e Int.Press Hyogo-Japão

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