A "Igreja do Fundo do Poço" nunca esteve tão cheia. Aos domingos, o ar-condicionado no máximo mal dava conta de abafar o cheiro de enxofre – ops, de incenso de alta qualidade – que emanava do altar. Na tribuna, Pastor do Reino, outrora um ferrenho caçador de demônios, agora exibia um sorriso reluzente como seus sapatos de couro e um broche com as vogais OAB banhado em ouro na lapela.
Num canto do banco da terceira fila, embaixo do velho relógio de parede, as irmãs futricavam. "Agora ele não precisa mais de laranjas para advogar para seus clientes. Passou no exame da ordem..." O fuxico dava a entender que todos sabiam que o pastor embora tivesse um escritório no centro com letras garrafais na fachada, não podia advogar legalmente! Mas no Reino da Dinamarca, tudo era permitido pelos chegados ao Rei que por sua vez, garantia assistência em troca de cargos com gordos salários a familiares.
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Fuxico de lado, segue o culto com o pastor plagiando um conhecido louvor da Harpa Cristã.
— Meus irmãos, fui cego, mas agora vejo! — bradou ele, num tom que misturava oratória pentecostal com corretores de seguros. — A teologia da prosperidade precisa de um novo parceiro. O "Lá de Cima" quer que vocês sofram agora para ganhar depois? Isso é falta de visão de mercado!
E a congregação boquiaberta soltava améns hesitantes. O pastor virou advogado! Mas não do diabo, ele corrigia, embora toda congregação soubesse que servir ao Rei e ao diabo, não era muito diferente. Ele era uma espécie de "consultor de riscos e gestão de ativos do Submundo".
— Pensem comigo, prosseguia no sermão: o Diabo é incompreendido. Ele não quer sua alma, ele quer sua performance! Por que dividir o salário se você pode ter o 13º, o 14º e o 15º? O inferno, meus amados, é apenas um espaço de coworking sem regras de RH. E assim Ele passou a pregar novas parábolas. A da ovelha desgarrada virou a "Parábola do Criptoativo Perdido". O dízimo, antes sagrado, agora era "investimento na conta garantida", como era o salário de sua cônjuge no cabide de empregos do Reino.
— Chega de culpa! A vaidade é meu pecado favorito, reconhece se gabando de seu terno Giorgio Armani, sapatos Hugo Boss e brilhantina Glostora no cabelo, hoje já tingido semanalmente de preto.
E continuava seu sermão sem pé nem cabeça. Mas eu digo: a vaidade é apenas autoestima elevada ao nível supremo! Se tatuar faz ir para o inferno antes do diabo, então vou retocar a minha agora, porque lá deve ser quentinho e cheio de festa!
— E, distraído acabou trocando a bíblia no púlpito por um contrato de fachada. Aquele supostamente assinado para defender o Rei em audiências contra os desafetos.
O auge foi quando ele anunciou o "Sabonete do Descarrego Inverso", vendido a 500 reais. "Ele não tira o mal, ele atrai o poder! A tentação é apenas uma oportunidade de negócios disfarçada", pregava.
No final do culto, ao invés de passar a sacola, o pastor pedia aos diáconos que levassem até os fiéis uma máquina de cartão sem fio, perguntando quem queria "assinar com a gente". Envelopes para dízimos e ofertas era coisa do passado!
— Pastor, isso não é contra a lei de Deus? — perguntou uma das irmãs sugerindo que o líder religioso não sabia interpretar textos.
— Minha cara, a lei de Deus é antiga, arcaica, rebateu citando Lucas 16:16... "A Lei e os Profetas duraram até João". Eu advogo e prego pela nova ordem: menos culpa, mais juros! — respondeu ele, com um sorriso de lobo, ajeitando a gravata Dolce & Gabbana que, sob a luz do altar, parecia perigosamente avermelhada assim como a política do Reino.
— Minha cara, a lei de Deus é antiga, arcaica, rebateu citando Lucas 16:16... "A Lei e os Profetas duraram até João". Eu advogo e prego pela nova ordem: menos culpa, mais juros! — respondeu ele, com um sorriso de lobo, ajeitando a gravata Dolce & Gabbana que, sob a luz do altar, parecia perigosamente avermelhada assim como a política do Reino.
O templo aplaudiu. Afinal, por que vender a alma se você pode ter um contrato de consultoria com ótimos benefícios?
Para pastores que trocam o chamado de Deus pela sujeira da política e seus aproveitadores, a igreja passa a ser instrumentalizada como uma ferramenta de poder, mobilização e conquista de votos, funcionando mais como um comitê eleitoral do que como um espaço de adoração e fé.
Nessa perspectiva, o púlpito é transformado em tribuna, e a comunidade de fiéis é vista como uma base de "massa de manobra" ou um grupo coeso de fácil captação para pautas de interesse eleitoral.
E o engomadinho se esquece que nada passa desapercebido aos olhos de Deus. "Ninguém pode servir a dois senhores" reza a máxima bíblica ensinada por Jesus, registrada em Mateus 6:24. O coração humano se apegará a um e desprezará o outro, exigindo uma escolha de lealdade e prioridade. Ou serve a Deus, ou a Mamom (dinheiro)!
Mas o coração dado a corrupção do poder, despede a exclusividade na devoção a Deus, indicando que o amor exagerado pelas riquezas escraviza os fracos e impede a verdadeira adoração a um Rei somente, que com certeza não está no Reino da Dinamarca.
Como ensinou Jesus, a tentativa de servir a dois mestres gera uma vida de duplicidade, onde o indivíduo acaba sendo vítima de sua própria divisão de interesses.
Como dizia Hamlet..."Há algo de podre no Reino da Dinamarca".

FONTE/CRÉDITOS: Folha Portal/Ely Damasceno

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