A pretensa postulação a pré-candidatura da vice-prefeita Mari de Sá, à chefia do Executivo municipal traz ao centro do debate político local o desafio da coerência administrativa. Conhecida por sua postura combativa quando exercia o mandato de vereadora — período em que cobrava de forma implacável soluções para o desabastecimento de medicamentos de uso contínuo na rede pública —, a atual gestora enfrenta o desgaste de carregar o silêncio institucional diante de problemas semelhantes na atual gestão, gerando questionamentos sobre a mudança em seu posicionamento após a ascensão ao poder Executivo.
A metamorfose política é um fenômeno clássico, mas que nunca deixa de chocar pela velocidade com que altera a visão de mundo de quem alcança o poder. O caso de Mari de Sá, atual vice-prefeita de Ibiporã e diretora-presidente do Samae, ilustra perfeitamente como o posicionamento em uma cadeira pública determina o nível de empatia com o sofrimento alheio.
A Vereadora Combativa vs. A Vice Silenciosa
Encontramos aqui um pedido de informações protocolado em 13 de novembro de 2017 onde do alto da tribuna da Câmara Municipal, a então vereadora exibia uma postura implacável contra o ex-prefeito João Toledo Coloniezi. Naquela época, a falta de medicamentos de uso contínuo para hipertensão e diabetes era tratada por ela como uma urgência humanitária inaceitável. O discurso defendia com unhas e dentes o direito constitucional da população carente ao acesso gratuito à saúde.
Hoje, no entanto, o cenário mudou drasticamente: A cadeira mudou: Ao assumir o cargo de vice-prefeita na gestão executiva, o ímpeto de cobrança desapareceu. A visão encurtou: Os “meses de espera” que antes causavam revolta agora parecem diluídos na burocracia que ela própria ajuda a gerenciar.
O silêncio impera: A mesma população que a procurava para relatar o desabastecimento continua enfrentando problemas na rede municipal, mas o canal de diálogo direto perdeu a utilidade eleitoral. E fica a pergunta do eleitor: _O Que Muda Quando se Sobe o Degrau do Poder?
A resposta para a mudança de comportamento é simples e puramente pragmática: o foco do político muda quando ele deixa de ser pedra e passa a ser vidraça. Quando se é oposição ou legislador, apontar as feridas da Secretaria de Saúde é um método eficiente para angariar a simpatia do eleitorado e desgastar o governante de turno.
Contudo, ao se acomodar no Palácio Executivo e assumir diretorias, a realidade dos postos de saúde desabastecidos passa a ser um incômodo institucional que precisa ser camuflado, e não resolvido a público. É com essa postura que a vice-prefeita postula ser a candidata a sucessão de José Maria Ferreira?
Fechar os olhos para as necessidades básicas de quem precisa de remédios para pressão e diabetes não é uma perda de memória coletiva; é uma escolha política de conveniência. A sensibilidade social de outrora, ao que tudo indica, ficou esquecida na gaveta de promessas de campanha, provando que o sofrimento do cidadão muitas vezes serve apenas como trampolim para a ascensão ao poder.
A postulação de Mari de Sá à cadeira de prefeito expõe a maior das contradições políticas: a pretensão de governar uma cidade com base no esquecimento seletivo. Quem ontem usava a falta de remédios para construir palanque, hoje lidera uma gestão que silencia diante dos mesmos problemas, operando sob uma moral puramente utilitarista.
A Fragilidade da Justificativa Eleitoral
Para se apresentar como a sucessora natural ao cargo de chefe do Executivo, a atual vice-prefeita esbarra em um severo passivo de coerência: Amnésia conveniente: A cobrança implacável por licitações rápidas e postos de saúde abastecidos foi engolida pelo pragmatismo do cargo.
Omissão cúmplice: Ao fechar os olhos para o desabastecimento atual, ela valida a mesma incompetência administrativa que outrora rotulava como inaceitável.
Discurso desgastado: A narrativa de “renovação” ou “Continuidade eficiente” perde força quando o cidadão contrasta as promessas do passado com a negligência do presente.
O Pragmatismo da “Moral de Conveniência”
Na engrenagem política tradicional, a moralidade frequentemente se molda ao tamanho do poder almejado. Quando o objetivo era desgastar o ex-prefeito João Toledo Coloniezi, a saúde pública era tratada como prioridade absoluta e intocável. Agora que o objetivo é herdar a prefeitura, a prioridade passa a ser a blindagem da própria gestão, mesmo que isso custe o bem-estar dos munícipes com diabetes ou hipertensão.
A postulação ao cargo máximo do município ocorre, portanto, não pelo reconhecimento de um trabalho impecável na saúde, mas pela audácia da sobrevivência política. A estratégia aposta na memória curta do eleitor, esperando que o brilho de uma nova campanha apague o rastro de promessas abandonadas nos balcões vazios das farmácias municipais.

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