Em tempos de polarização política, o Brasil testemunha um milagre digno de nota: a multiplicação dos discursos convenientes. Imaginemos a figura folclórica de um autoproclamado pastor evangélico e formador de opinião que, com uma Bíblia sob o braço esquerdo e a ata de um partido de direita (como o PL) no bolso direito, consegue a proeza de equilibrar-se em dois mundos opostos.
Enquanto seus lábios professam o conservadorismo, suas mãos trabalham nos bastidores, fazendo campanha para aliados e figuras históricas do petismo. Trata-se do verdadeiro "Centrão Espiritual". "DIGA-ME COM QUEM ANDAS, E TE DIREI QUEM ÉS"...
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Essa máxima popular resume perfeitamente o drama do nosso pastor-cacique. No tribunal da coerência, quem caminha de braços dados com a esquerda enquanto esconde uma legenda de direita no bolso do paletó acabaria condenado por crise de identidade. Mas no altar do oportunismo, isso é apenas "gestão de risco".
Para o rebanho que o segue de olhos fechados, o pastor prega o preto no branco, o bem contra o mal. Porém, nos bastidores, ele descobriu que o cinza-asfalto das alianças fisiológicas é muito mais lucrativo. Ele caminha com os "corruptos petistas" e simpatizantes para garantir o poder de hoje, mas mantém o partido de direita guardado para ser o herói de amanhã. É o verdadeiro milagre da multiplicação das faces: ele é o que você precisar que ele seja, desde que o preço — ou o cargo — seja justo.
No fim, a profecia bíblica se cumpre com precisão cirúrgica. Ao escolherem um guia que muda de direção conforme o vento das urnas, os liderados mostram que a cegueira não é apenas visual, é de conveniência. Afinal, para quem não quer ver a contradição, qualquer barranco serve como destino.
A estratégia é de uma genialidade puramente comercial. Guarda-se a sigla de direita trancada a sete chaves, como quem guarda um bilhete de loteria premiado. Se o "marginal de estimação" da vez fracassar nas urnas, o pastor-cacique não perde o sono: ele simplesmente abre o bolso, limpa a poeira da legenda de direita e apresenta-se ao mercado político como a nova salvação da pátria, pronto para tirar proveito do vácuo de poder. É a teologia da prosperidade partidária.
Essa ginástica moral evoca diretamente a clássica sabedoria bíblica registrada no Evangelho de Lucas (6:39): "Pode um cego guiar outro cego? Não cairão ambos no barranco?". No cenário atual, o "formador de opinião" atua como esse guia visualmente desprovido, conduzindo um rebanho que prefere fechar os olhos a enxergar as contradições do altar-palanque.
O pastor finge que guia, o rebanho finge que segue a doutrina, e o partido segue rendendo fundos eleitorais. No final, o único dízimo que realmente importa para essa liderança é o quinhão de poder garantido, não importa quem vença a eleição. O que falta para este cidadão é duas coisas: Temor de Deus e vergonha na cara!
FONTE/CRÉDITOS: Folha Portal/Ely Damasceno

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