O prédio da Câmara Municipal, historicamente apelidado nos bastidores de "puxadinho do Executivo", está passando por uma revitalização visual sob a batuta do presidente da Casa, o vereador Rafael Eik Ferreira. O detalhe que roubou a cena — e que já virou piada de corredor — é a escolha do tom da pintura: um inconfundível "amarelo lombriga". A sintonia é tão profunda que o prédio da Câmara está sendo pintado com o mesmíssimo e já folclórico tom que adorna a prefeitura — aquela cuja reforma já virou patrimônio da lentidão local, arrastando-se por três intermináveis anos.
A escolha da tinta não seria um problema se não fosse rigorosamente a mesma identidade visual utilizada no prédio da prefeitura. O visual "par de vasos" das sedes dos poderes transformou a cidade no cenário perfeito para uma comédia de costumes políticos. Nos bastidores, a piada é que o presidente da Casa não precisou de um designer ou de um arquiteto para escolher a nova identidade visual: bastou abrir o inventário de sobras do quintal do pai ou pedir a lata de tinta emprestada para o chefe do clã.
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O apelido de "puxadinho do Executivo" ganhou, finalmente, uma validação estética incontestável. Afinal, por que fingir independência institucional se você pode demonstrar amor filial em metros quadrados de alvenaria? Para os observadores mais ácidos, a coincidência de cores é o retrato perfeito da simbiose política local: uma demonstração explícita de que a independência entre os poderes, neste caso, foi completamente diluída na mesma lata de tinta. Vale lembrar que o presidente do Legislativo é ninguém menos que o filho do alcaide, o que torna a metáfora visual ainda mais evidente.
Até a véspera do pleito municipal, o prefeito mantinha um controle rígido sobre sua bancada de apoio. No entanto, o resultado das urnas trouxe um balde de água fria para o projeto dinástico de fazer do filho o herdeiro político imediato do trono municipal.
O fracasso eleitoral, dos utópicos quinze mil votos no município também atingiu aliados de peso como a base do governador do Estado, escancarando o desgaste de uma gestão criticada pela indiferença em atender demandas básicas, frustrando inclusive parlamentares da própria base aliada. Tem vereador engolindo em seco, e troco será inevitável.
O problema é que esse idílio familiar e político acabou sofrendo um curto-circuito na realidade fria das urnas. O plano de transferir a coroa e transformar o herdeiro no sucessor imediato do trono municipal esbarrou na insatisfação geral da população e na rebeldia de uma bancada cansada de receber apenas ordens e nenhuma atenção. Até o governador, padrinho do projeto, acabou saindo chamuscado.
Agora, com fiasco consolidado, o ambiente familiar na política de Ibiporã promete ficar um pouco mais tenso. Os vereadores, que antes aceitavam o cabresto — e a paleta de cores — sem reclamar, começam a ensaiar um novo repertório musical, movidos pelo compromisso com seus deputados e a própria sobrevivência política.
Com o fim do período eleitoral e a necessidade dos vereadores prestarem contas aos deputados de suas respectivas siglas, a fidelidade cega ao Executivo parece ter desbotado. O recado das urnas sugere que o tom da música na retomada dos trabalhos legislativos será outro.
Resta agora saber se, com a perda do controle absoluto e o clima de ressaca política, as arrastadas obras públicas da cidade — que hoje avançam no ritmo de "devagar, quase parando" — ganharão algum fôlego ou se continuarão empacadas, combinando perfeitamente com o tom pálido do novo visual de uma prefeitura inacabada e uma Câmara pintada à imagem e semelhança do papai.
FONTE/CRÉDITOS: Folha Portal/Ely Damasceno

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